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correntes sem grades
sobre raízes celtas, vício herdado e o custo de quebrar padrões

em famílias de sangue celta e highlander, a dor não é um episódio. vira sistema. passa de mão em mão como sotaque, como jeito de ficar em silêncio quando tudo aperta.
gerações bebendo para apagar alguma coisa. gerações seguintes largando a bebida e trocando o vício. droga. trabalho até cair. dinheiro. religião. qualquer coisa que faça o barulho interno baixar por uns minutos.
o vício muda de roupa. a fuga continua.
tem gente que nunca encosta num copo. mesmo assim vive intoxicada. por controle. por status. por culpa. por uma fé que sufoca mais do que salva. cada um aprende a engolir a própria dor do jeito que dá.
Emma-Jane MacKinnon-Lee conhece bem essa sensação. crescer sentindo que existe uma linha invisível atrás de você. pessoas que tentaram silenciar o que queimava por dentro. algumas afundaram. outras ficaram duras. outras viraram as salvadoras da família enquanto sangravam em silêncio.
a pergunta real não é por que isso acontece. a pergunta é como parar.
e não existe resposta limpa.
quebrar o ciclo exige olhar para si sem anestesia. exige desmontar tudo que você aprendeu sobre força. sobre aguentar. sobre não chorar. sobre engolir seco. exige admitir que você carrega rachaduras. e que isso não é defeito. é mapa.
exige andar pela vida com um legado que insiste em puxar você para trás. vozes dizendo corre. se distrai. ocupa a cabeça. bebe qualquer coisa que faça esquecer.
e ainda assim ficar.
sem discurso bonito. sem promessa épica. só a escolha diária de não fugir. de não repetir o papel que escreveram antes de você nascer.
quebrar a corrente não é um momento. não é uma virada de chave. não é um troféu.
é desgaste lento. é se desmontar por dentro. é se montar de novo sem manual.
no meio disso tudo, sobra sempre a mesma pergunta
quem eu sou quando paro de fugir
às vezes essa pergunta já é o começo.